“Sofri e sofro preconceito na faculdade de Direito que estudo aqui em Maceió por ser albino. Todo o processo de exclusão pelo qual passei me levou à depressão. Com ajuda de muita gente, consegui superar esse processo, mas não é fácil ser albino no Brasil, e em Alagoas não é diferente”. A declaração foi dada pelo universitário Davi Souza na audiência pública com o tema “Albinismo: a luta contra a invisibilidade do poder público”, que foi realizada nesta sexta-feira (15), na Câmara Municipal de Maceió. O encontro ainda faz parte do 13 de junho, Dia Municipal do Albinismo.

Além do estudante, especialistas e membros de associações que lutam para garantir direitos aos albinos também participaram da audiência. O albinismo se caracteriza pela existência de um gene recessivo que causa deficiência na produção de melanina. Tal deficiência altera a cor da pele, pode causar problemas na visão e, em casos onde não há cuidado devido, o aparecimento de câncer de pele. Maceió possui uma lei, de autoria de Tereza Nelma (PSDB), que obriga o poder público municipal a fornecer protetor solar aos albinos da cidade. Ele foi a propositora da audiência.

Conforme dados apresentados nesta sexta, o Brasil não tem números concretos sobre o albinismo. Para se ter ideia, o censo demográfico realizado no país pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) não dá ao albino a opção de se reconhecer como tal no questionário que trata da cor da pele. Ainda de acordo com os números, no mundo nasce um albino a cada 20 mil habitantes.

“Antes da associação, era bastante complicado vermos, como aqui em Maceió, jovens albinos interagindo uns com os outros. Esse foi um dos objetivos de criamos a Apalba: nos tornarmos visíveis e autônomos. O albinismo não é uma doença, mas sim uma deficiência causada por problemas na produção de melanina. As dificuldades ainda são enormes para quem é albino, mas o engajamento de muita gente, a exemplo da vereadora Tereza Nelma, e de vocês aqui de Alagoas, tem feito a diferença para nós. Temos uma luta desenvolvida há 17 anos na Bahia, e não foi nada fácil. Por isso, as palmas que vocês me deram agora vão para vocês, não para mim. A mensagem é que deixo é não desistirmos”, afirmou Maria Helena Machado, diretora da Associação das Pessoas com Albinismo da Bahia (Apalba).

A entidade baiana também foi representada na audiência desta sexta-feira por Joselito Pereira da Luz, membro da Comissão de Ética.
“Apesar de tudo, os albinos ainda são invisíveis no Brasil. Tanto é assim que o poder público não possui dados sobre o número de pessoas com essa deficiência no país. Maceió e a Bahia deram passo importante na luta pela inclusão do albino. Mas, precisamos seguir nos organizando para não dependermos de ações outras isoladas. A iniciativa da vereadora Tereza Nelma na apresentação e consequente aprovação da lei que garante, aqui, a entrega de protetor solar para o albino é um grande passo. Para os albinos, o protetor solar é vida. Porém, o trabalho tem que existir no sentido de integrarmos saúde, educação e inclusão social, sempre. Parabenizo Maceió pelo trabalho feito”, disse Joselito de Souza.

Assistente social, Luciana Ferreira de Castro, integra a coordenação de Gerência de Atenção à Pessoa com Deficiência ligada à Secretaria Municipal de Saúde de Maceió. A Gerência trabalha, atualmente, com mais de 60 albinos.

“Acompanhamos os albinos desde 2009. São crianças, jovens e adultos que buscamos fazer o processo de inclusão, psicológico e, ao lado da vereadora Tereza Nelma, conseguimos que hoje o poder público forneça o protetor solar e labial que são essenciais na prevenção de doenças de pele. Dos mais de 60 albinos, metade é daqui da capital e o restante de cidades do interior. É uma luta por também fazer com que eles aprendam e se fortaleçam como seres humanos e cidadãos, que são”, disse Luciana de Castro.

“Um de meus nortes de vida é que o mundo é um lugar que cabe todos. Dessa forma, realizamos mais uma audiência pública para debater inclusão e denunciar preconceito contra albinos. Infelizmente, isso existe e não podemos fingir o contrário. Mesmo assim, trabalhamos para mudar tal realidade e ajudar, com a lei de minha autoria, que obriga o poder público a fornecer o protetor solar a quem tem albinismo. Foi muito enriquecedor ouvir os depoimentos de quem trabalha para dar visibilidade aos albinos, como a Apalba, da Bahia, a Gerência de Atenção à Pessoa com Deficiência aqui de Maceió, mas também nos entristece ouvir relatos como do Davi, que só agora, depois de um ano, retorna à faculdade após superar uma depressão que sofreu por conta do preconceito”, declarou Tereza Nelma.